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Mergulho

Trocando Figurinhas: como completar o álbum à distância?

A primeira Copa do Mundo pós-pandemia chega com mais um desafio: como vai ser para trocar figurinhas?

por

Bruno Capelas

em

15 de agosto de 2022

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

“E aí a gente se encontra no escritório semana que vem pra trocar mais figurinhas, o que você acha?”

Quantas vezes você já ouviu essa frase em alguma call recentemente? Já parou pra pensar que faz tempo que a gente não troca figurinhas de verdade? É um fenômeno raro na vida dos adultos, mas acontece: de quatro em quatro anos, tal qual eleições presidenciais e o dia 29 de fevereiro, a gente se junta no canto do escritório, no cafezinho, meio escondido do chefe, para trocar cromos autocolantes. As boas e velhas figurinhas da Copa. Acho que tem pouca coisa que define melhor o espírito de firma do que fazer o álbum da Copa. 

É um fuzuê danado: aquele cara do comercial querendo trocar cinco figurinhas em busca da brilhante da França, a gerente do RH correndo atrás daquela do Neymar para ajudar o filho a completar o álbum… e sempre tem o mala que fica querendo passar adiante uma das cinco cópias daquele jogador turco que fez todos os gols da última temporada na segunda divisão da Inglaterra. Em 2022, a Copa é no final do ano, o que aumentou um bocado a nossa saudade de decorar os nomes esdrúxulos e desenvolver uma relação quase pessoal, de amor e ódio, com aquele onipresente reserva da seleção da Tunísia que aparece em todos os pacotinhos que a gente compra. 

Isso para não falar em ficar encarando os adversários do Brasil, pensando naqueles dias que a gente vai sair mais cedo ou chegar um pouco mais tarde no escritório… pera, escritório? Peraí, mas a gente tá indo para o escritório? Qual é a graça de Copa em tempos de trabalho remoto? Já pensou, todo mundo assistindo ao jogo junto pelo Zoom? Será que vai rolar um canal só para xingar os comentários do Galvão Bueno no Slack? E as figurinhas, meu Deus, como é que a gente vai trocar figurinhas? 

Pior é que esse ano o pacote com cinco figurinhas vai custar R$ 4. Na Copa passada, era R$ 2. A gente fala da alta nos combustíveis, na energia, mas da inflação da figurinha ninguém fala, né? Se são 670 figurinhas, a gente vai ter que gastar mais de R$ 500 nessa história – e isso se não vier nenhuma repetida, né. E vai piorar: na Copa de 2026, serão 48 seleções, vai ter muito mais pacotinho pra comprar – talvez esse seja o último álbum que a gente possa fazer na vida. 

De qualquer forma, não vai dar pra completar só na sorte, tem que trocar figurinha (e muito!). Mas para quem está trabalhando de casa há dois anos, vai fazer como? Vai mandar motoboy pra casa dos outros com envelopinho? E se mandarem envelope errado, vai dar confusão. Capaz até de virar briga no RH isso aí. 

Quem está no trabalho híbrido vai se dar melhor – tem até dia marcado para conseguir reduzir o bolinho de repetidas. Certeza que vai ter empresa inventando rituais para isso: depois do All Hands, todo mundo passando a mão nas figurinhas de lá para cá – e dá-lhe álcool em gel. (Esperamos que a Panini tenha pensado nisso, já pensou um álbum todo borrado?). Pelo menos, com essa história de higiene a gente não vai precisar ficar fingindo que ainda tem idade para bater bafo. Se bem que… olha, uma gotinha de álcool em gel escondida ali na mão bem que poderia ajudar a virar o Mbappé, hein? 

Melhor não pensar nessas coisas. Mas acho que viria bem a calhar isso de ter encontros presenciais para trocar figurinha. É das pequenas coisas que fazem a vida na firma ter mais sabor – e os gestores que me perdoem, mas tem dias que nenhuma entrega vai ser mais legal do que fechar a página da seleção da Costa Rica. Sem falar que é nessas horas que a gente conhece as pessoas, a verdadeira colaboração entre as áreas está ali, com todo mundo querendo aumentar a eficiência dos pacotinhos e evitar o desperdício das repetidas. Afinal, na caça para completar o álbum, todo mundo é gente como a gente – do CEO ao estagiário. 

“E aí, bora trocar umas figurinhas?” 

Bruno Capelas

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.