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Na sala

Combatendo o estresse no trabalho: 3 profissionais falam sobre o tema

Para o Dia Mundial de Combate ao Estresse (23/9), Kelly Ramos, Psicóloga e Chief Human Resources Officer; Marcelo Santos, da Agir Social; e Sérgio Pedroso, da Zendesk, trocam uma ideia sobre o assunto

por

Lidiane Faria

em

23 de setembro de 2022

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

Difícil encontrar algum profissional que não tenha passado por pelo menos um momento de estresse ultimamente. Com as mudanças de rotina decorrentes da pandemia e os modelos de trabalho cada vez mais diferentes, o tema, bem como casos de burnout, têm sido recorrente no ambiente corporativo.

Neste dia 23 de setembro, data em que é celebrado o Dia Mundial de Combate ao Estresse, convidamos Kelly Ramos, Psicóloga e Chief Human Resources Officer; Sergio Pedroso, Diretor de Comunicação LATAM na Zendesk; e Marcelo Santos, Head de Treinamento, Desenvolvimento, Educação e Comunicação na Agir Social, Doutor em Semiótica e professor na ESPM, para discutiram se é possível pensar em felicidade corporativa, divisão entre vida pessoal e profissional e como as empresas e lideranças podem melhorar este cenário.

-> Kelly Ramos pergunta para Sérgio Pedroso:

Considerando que o Brasil é o 2º país com mais pessoas sofrendo de ansiedade, burnout, depressão, estresse, entre outros, podemos dizer que ainda é possível ser feliz no trabalho? Se sim, quais são as práticas (simples) que podemos aderir para cultivar a Felicidade Corporativa?

Sérgio: Apesar do tema complexo, talvez as respostas sejam mais simples e óbvias do que imaginamos. Primeiro, e acima de tudo, lembrar que somos pessoas e lidamos com outras pessoas. Cada indivíduo é único, e, com a bagunça que a vida se tornou nos últimos anos – tantas incertezas, mudanças e adaptações – é normal que cada um reaja à sua maneira e aprenda no seu tempo.

Enxergar o ser humano além do cargo, das responsabilidades e dos resultados é fundamental. E precisamos lembrar que, como pessoas, precisamos de propósitos para nos motivarmos. Por que estamos fazendo isso? Quais são nossos objetivos? Qual papel eu ocupo nesse contexto? Essas são algumas das perguntas que nos fazemos diariamente, e quanto mais a empresa for capaz de responder a elas, mais motivados serão seus colaboradores.

Por fim, equilíbrio. Termo que eu particularmente adoro e utilizo como guia para minha vida. Seja no papel de gestor ou colaborador, precisamos lembrar sempre de que o equilíbrio é fundamental para nossa saúde, física e mental. Tudo tem seu tempo e sua razão, e cada aspecto de nossas vidas é necessário, seja se complementando ou se compensando.

Meu equilíbrio, quando tudo parece errado, é poder ficar com meu filho, fazendo as coisas mais simples como jogar futebol ou assistir desenhos animados. Ele me lembra do meu propósito pessoal, do quanto as pequenas vitórias também importam e de como sempre teremos uma nova chance de acertar e melhorar.

Teremos dias ótimos no trabalho, e seremos extremamente produtivos. Teremos dias péssimos, e só uma palavra de conforto ou um abraço amigo nos ajudará com esses desafios. E tudo bem, sem culpa ou cobrança exagerada.

Então, minha resposta é sim, podemos ser felizes no trabalho. O tempo todo? Não acredito, mas o suficiente para lembrarmos os motivos pelos quais estamos ali, fazendo o que fazemos. Em um mundo ideal, criando uma rede de apoio entre as pessoas, e, também, entre empresa e colaboradores, para que os momentos infelizes sejam cada vez mais leves e passageiros.

-> Sérgio Pedroso pergunta para Marcelo Santos:

Um dos paradigmas profissionais sempre foi a separação entre a vida pessoal e o trabalho. No entanto, com os novos modelos de trabalho, não podemos mais ignorar o lado humano nas empresas, algo tão importante, ou a profissão que agora está em nossas casas.

Como você apoia e estimula o equilíbrio entre os profissionais e quais são as principais ações realizadas em combate ao estresse?

Marcelo: A pergunta é complexa e traz para primeiro plano desafios que foram acentuados com a pandemia e a implementação do trabalho remoto em larga escala. Do dia para noite, nossas salas e quartos viraram escritórios e isso trouxe consequências para a vida pessoal. Sobretudo porque na maior parte dos casos não existia preparação emocional, de infraestrutura e familiar para se trabalhar de casa. Ganhamos coisas como não pegar trânsito, mas passamos a almoçar (ou engolir comida rapidamente) durante reuniões feitas por aplicativos.

Nesse sentido, penso que as organizações tenham um papel protagonista para trazer o equilíbrio ao qual você se refere. Além de dar computadores e ajuda de custo para internet, precisamos incluir com seriedade nos kits de onboarding horas de treinamento e alinhamento cultural.

A primeira coisa a se fazer é educar lideranças e pessoas lideradas sobre a importância de se respeitar jornadas de trabalho que não sejam excessivas, isso é, de se impor limites ao trabalho que, agora, fica a poucos passos do sofá ou da cama. Isso pode ser direcionado pela cultura, tornando o comportamento de se trabalhar de modo excessivo e fora dos horários acordados com recorrência algo não apenas não premiado, como também malvisto. Chega de premiar workaholics e tratar essas pessoas como exemplos.

Segundo: é necessário criar programas de Treinamento, Desenvolvimento e Educação que problematizem temas como comunicação síncrona e assíncrona. Por exemplo, não é porque alguém recebeu um e-mail ou mensagem de slack sábado de manhã que a resposta precisa ser dada de modo imediato. Exatamente porque se usou um canal assíncrono. Se esses acordos não são nítidos e a organização não tem uma política definida de uso de ferramentas (algo como para urgências, o uso do telefone), cria-se um convite ao estado de vigília perene. O que é péssimo, improdutivo e compromete a saúde mental e física, gerando estresse.

Ainda falando de treinamento e desenvolvimento, acho que as organizações podem focar em tópicos como gestão de tempo e como evitar distrações (que impedem nossa concentração) e interrupções (que paralisam o que estamos fazendo). Isso aumenta a produtividade e a qualidade das entregas. 

Recentemente montei um programa de educação para lideranças de uma empresa nacional do setor de saúde. No momento de realizar o diagnóstico, muitas pessoas se queixaram da dificuldade de se concentrar por conta de variados aplicativos enviando mensagens o tempo todo. Isso era fonte de interrupções de atividades complexas. 

Como o óbvio não existe, uma das coisas que problematizamos no treinamento foi a necessidade de se ter horários fixos para se olhar e-mails e mensagens: nesses momentos, o foco deveria ser apenas esse e seria necessário responder todas as mensagens, sem deixar pendências. Houve quem nem soubesse que dava para silenciar o Slack. E existiu, sobretudo, muita resistência. Afinal, mudar de hábito nunca é simples, mas acordamos como grupo testar a prática sugerida e que os próprios pares iam se apoiar.

Passados dois meses do treinamento, fiz pulse survey e algumas entrevistas com participantes. Todas as pessoas relataram que ter horários reservados para comunicação assíncrona mudou a vida delas: ficou mais fácil se concentrar e não exceder a jornada de trabalho. Uma pessoa brincou falando que cérebro tinha “rejuvenescido 10 anos” e me contou que já tinha disseminado a prática para suas pessoas lideradas.

-> Marcelo Santos pergunta para Kelly Ramos:

Muitas lideranças, na busca por atingir metas irreais, fazem pressão sobre as pessoas lideradas. O resultado é ansiedade, problemas de sono, irritação, desengajamento e medo de um desligamento. Quais estratégias podem ser implementadas por times de People & Culture para mitigar esse tipo de situação?

Kelly: Costumo dizer que não precisamos ter escorregador com piscina de bolinha e achar que isso será suficiente para tratar esses pontos. Isso faz diferença? Faz, óbvio, mas não o suficiente. Prefiro ir pelo caminho do menos é mais, como: implantar pausas de 10 minutos - o famoso ócio criativo, marcar reuniões de 45/50 minutos, assim você consegue respirar, se preparar e se reconectar para a próxima, celebrar as conquistas da semana, reconhecer os colaborares que se destacaram no mês, construir um e-book sobre micro e macro pausas, os líderes influenciarem a atividade física como principal pilar da saúde mental e emocional, check-in da semana e sexta-feira do Obrigado. 

Veja que nada do que estou sugerindo envolve budget, mas sim disponibilidade, engajamento, pertencimento e uma conscientização e preocupação com os colaboradores que são nossas maiores riquezas dentro de uma companhia.

Leia também: Bem-estar no trabalho: profissionais da Dengo Chocolates, Nomad e Conexa Saúde falam sobre o tema

Lidiane Faria

Lidiane Faria é graduada em Relações Públicas e pós-graduada em Jornalismo. Tem experiência em startups de tecnologia, consultorias e emissoras de TV e adora ouvir pessoas incríveis.